A vez do agro

Muito além da porteira, o agro brasileiro ganha as passarelas da moda, os grandes leilões, as redes sociais e o imaginário urbano, vivendo uma nova fase de visibilidade que o consolida como potência econômica, tendência cultural e estilo de vida

O agro já não cabe mais apenas dentro da porteira. Ele está nas passarelas da moda, nos grandes eventos, nas redes sociais, na televisão e até no imaginário urbano de um país que redescobre suas raízes. O que antes era visto apenas como atividade produtiva hoje se tornou linguagem, estética e referência cultural. O agro é muito mais que pop. O agro é tendência, referência e estilo de vida. Do campo à cidade, das arenas de exposições às vitrines das grandes marcas, para onde se olha o agro aparece como protagonista de um novo momento brasileiro.

Esse movimento não acontece por acaso. Ele é sustentado por uma força econômica gigantesca que, há décadas, movimenta o país e agora passa a ganhar também visibilidade cultural. No Brasil, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA) da ESALQ-USP estima que o setor varia entre 25% e 27,4% do PIB nacional, representando cerca de 500 bilhões de dólares. De acordo com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o PIB da agropecuária cresceu 11,6% em 2025. Com isso, o setor respondeu por cerca de um terço do crescimento econômico do Brasil no ano. Ao mesmo tempo em que consolida sua força econômica, o agro também conquista espaço como fenômeno cultural, impulsionando grandes eventos, megaestruturas, experiências premium e um novo posicionamento de marca que transforma a maneira como o Brasil olha para o campo.

Mas, muito antes do agro virar sinônimo de estilo, o pecuarista raiz já seguia sua própria moda, moldada na essência da vida rural. Entre os criadores de Zebu, uma referência nesse quesito é o agropecuarista e criador de Sindi Adaldio Castilho, da Reunidas Castilho, que sempre carregou um estilo próprio que é a cara do agro. Chapéu, bota, cinto e fivela: simplesmente porque é o necessário na vida da roça. 

“Eu mesmo não me reconheço sem chapéu. Fui criado no interior em uma época que todo mundo usava. Agora, o chapéu que por bem dizer é uma proteção do sol essencial para quem trabalha na fazenda, virou a moda country. A moçada se identificou mesmo com o estilo. Eu tenho orgulho de ser o que eu sou. Nunca vivi uma vida diferente do agro, do chapéu, do cowboy. Todos os ambientes que eu vou eu vou assim, e hoje o meu filho quer se vestir igual a mim. É uma identidade”, conta o criador. 

Há alguns anos, era fácil achar Adaldio entre a multidão: era sempre o cara de chapéu. Hoje, ele se mistura à profusão de chapéus de todos os estilos que agora é item quase obrigatório nos grandes eventos do setor. Mas, não é só no campo, a cidade também quer ser agro. Quem trabalha com moda e vestuário confirma, especialmente os especializados em couro. 

A Noblesse Ateliê é uma marca especializada em couro nobre que há mais de 30 anos está presente no closet das maiores pecuaristas do Brasil. Nos últimos dois anos, a marca teve uma procura crescente, inclusive por gente que não é do agro. “Houve um aumento significativo na procura e nas vendas nos últimos anos, especialmente a partir de 2024.  E sim, isso está diretamente ligado ao momento vivido pelo agro, que elevou o setor a ícone de lifestyle. Observamos inclusive um crescimento expressivo na demanda por peças sob medida que unem a sofisticação urbana à essência rural.  Clientes de todo o Brasil e em alguns lugares ao redor do mundo buscam não só qualidade artesanal em couros, mas também itens que expressam a identidade agro”, conta Liliane Fenske, designer e desenvolvimento da Noblesse Ateliê.

Ou seja, é muito mais que moda, é identidade e cultura. “Eu acredito que a estética agro já ultrapassou a lógica de ‘moda de momento’ e se firmou como expressão de estilo de vida, valores e pertencimento.  Não é só sobre chapéu, bota ou fivela, mas sobre uma identidade que conecta campo e cidade, tradição e contemporaneidade, funcionalidade e desejo estético. O agro é referência cultural e de consumo, redefinindo estilos de vida e tendências. É um lifestyle que transcende o campo. Mais que roupas, define uma cultura de simplicidade forte, pertencimento e equilíbrio entre raiz e inovação, celebrando o produtor como ícone cultural”, reflete Liliane. 

Nos últimos anos, esse movimento deixou de ser apenas percepção para se tornar um fenômeno visível em diferentes dimensões da sociedade. O agro ganhou espaço nas passarelas, nas redes sociais, nos festivais de música, nas vitrines de marcas autorais e nos grandes eventos do país. A estética rural passou a dialogar com o urbano, enquanto o estilo de vida do campo passou a inspirar consumidores que muitas vezes nunca pisaram em uma fazenda. Esse novo momento, no entanto, não surgiu de forma repentina. Ele é resultado de uma transformação profunda que o Brasil rural vem construindo ao longo de décadas, impulsionada por ciência, tecnologia e empreendedorismo no campo. O crescimento econômico do setor, aliado à modernização do interior do país e à força cultural que emana da vida rural, ajudou a construir uma nova narrativa para o agro brasileiro.

Para o publicitário, jornalista, escritor e professor referência em marketing no agronegócio José Luiz Tejon Megido, essa tendência do agro é resultado de um processo que vem acontecendo há décadas. “O agro passou a ser potência econômica nacional nos últimos 50 anos, antes disso importávamos alimentos e também nossa indústria era inexistente. Com ciência e tecnologia tropical passamos a produzir produtos que competem com mercados internacionais. Esse crescimento econômico fez nascer cidades com estruturas modernas no interior do Brasil . Logo as raízes culturais do passado se misturaram com a modernidade. Através da internet, da música sertaneja moderna, da moda e da gastronomia, o agro se tornou orgulho cultural de um novo Brasil. Através da ciência, de empreendedores, de cooperativas, de produtoras e produtores geramos um modo de vida hoje presente nas grandes capitais e na grande mídia do país. Isso é Agribusiness”, explica o especialista que é coordenador acadêmico do programa Master Science em Food & Agribusiness Management pela Audencia Business School, de Nantes, na França, e pela Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap).

Tejon concedeu entrevista à Revista Pecuária Brasil diretamente da França, onde participou do Salão Internacional da Agricultura 2026 (Salon International de l’Agriculture – SIA), promovido em Paris de 21 de fevereiro a 1º de março de 2026, no centro de exposições Porte de Versailles. É a maior feira agropecuária da Europa, destacando inovações, pecuária, produtos regionais e tecnologia. 

Para ele, ainda existe um gargalo de inteligência de marketing que impede o setor de aproveitar melhor o momento, mas acredita que existe potencial para o agro brasileiro se consolidar como uma das marcas mais fortes do país nos próximos anos. 

“Ainda não transformamos a realidade produtiva e científica do  agro tropical em marca . Temos um déficit de inteligência de marketing que exige atenção, foco e ação imediata a nível mundial. Se soubermos usar a inteligência e competência de legítimos profissionais de marketing brasileiros, viraremos referência”, reflete. 

A pujança do agro representada pela raça Nelore

Nesse cenário de valorização cultural e econômica do agro, a pecuária também ganhou novos contornos de protagonismo. O crescimento do setor impulsionou investimentos robustos em genética, tecnologia e estrutura produtiva, transformando fazendas em verdadeiros centros de excelência, mas não só. Grandes leilões, cada vez mais sofisticados para combinar com projetos de seleção genética que movimentam milhões de reais, mostram que o agro brasileiro vive uma fase de profissionalização e valorização sem precedentes. No centro desse movimento está a raça Nelore, base da pecuária de corte nacional e responsável pela maior parte do rebanho bovino do país.

Mais do que a mais numerosa, a raça Nelore se consolidou também como uma das mais desejadas do mercado, símbolo de investimento, tradição e inovação dentro da pecuária brasileira. Em torno dela orbitam alguns dos maiores remates do país, verdadeiros espetáculos do agro que combinam genética de ponta, hospitalidade e grandes produções. Esses eventos refletem um momento em que produzir bem já não é suficiente. É preciso também comunicar, receber e construir marca. Nesse universo em que genética, experiência e posicionamento caminham juntos, criadores que entendem o valor da imagem e da conexão com o público passaram a ocupar papel central no fortalecimento da pecuária brasileira. É nesse contexto que criadores se destacam transformando leilões em encontros marcantes para o setor.

Referência em estilo e elegância, a criadora Mônica Marchett, CEO do Grupo Mônica e diretora de marketing da Associação de Criadores de Nelore do Brasil (ACNB), poderia muito bem ter seguido o caminho da moda. Sua mãe sempre trabalhou com moda, fez Yves Saint Laurent no Brasil, e desde menina conviveu nesse meio da moda. Tudo indicava que ela, única filha mulher, daria seguimento à carreira da mãe. Mas, Mônica se apaixonou pela atividade do pai, o agronegócio. Hoje, ela é referência em receber bem e produzir leilões inesquecíveis. Para ela, os grandes eventos tem um propósito.

“O criador trabalha muitos finais de semana. Então, é uma oportunidade de trazer a família para esse trabalho de final de semana e aproveitar para descansar. As pessoas estão muito mais focadas na experiência, especialmente depois da pandemia, dando valor para o tempo que a gente tem para se dedicar ao trabalho, família, passeio. Então todo mundo viu isso e tenta ser mais criativo para pensar a maneira de receber nos leilões. E essa receptividade reflete na imagem, na marca do criatório, que tem tudo a ver com o momento que estamos vivendo”, afirma. 

Com o crescimento e a sofisticação dos leilões, surgiu também a necessidade de espaços à altura desses eventos. Estrutura, conforto e bom gosto passaram a fazer parte da experiência, refletindo o cuidado dos criadores em receber bem e valorizar ainda mais a genética apresentada. Para Mônica, que sempre teve o olhar atento para estética e hospitalidade, criar um lugar próprio para reunir pessoas, celebrar o agro e realizar seus eventos era apenas uma questão de tempo.

No interior de São Paulo, no município de Itu, ela está construindo um sonho. “É um espaço que estou construindo para minha família, amigos e consigo juntar nesse lugar o trabalho com genética pelo qual sou apaixonada. Me sinto muito feliz de poder no mesmo espaço colocar todas as minhas paixões. Um lugar leve, gostoso, para receber as pessoas não só nos leilões, mas para receber as pessoas ao longo do ano”, conta Mônica. A inauguração será em 2027 e promete ser uma materialização da essência do agro. 

Outro criador de Nelore que também é referência em produzir leilões que são verdadeiras experiências e dão show em requinte é Raphael Zoller, da Agropecuária Zoller. Ele precisou construir uma super estrutura dentro da sua propriedade para receber os convidados que queriam prestigiar os leilões pessoalmente, na Fazenda Realeza, em Mato Grosso do Sul. 

“O projeto Fazenda Realeza foi idealizado para atender e receber nossos clientes, amigos e parceiros. Até então, os leilões eram feitos de maneira virtual, estando na sede apenas os vendedores parceiros convidados, e éramos assistidos do Brasil inteiro. Se tornou um desafio, porque todo mundo queria vir, e recebíamos na nossa casa, não cabia todo mundo. Por isso gosto de dizer que antigamente nós recebíamos os convidados na nossa casa, e em 2025 nós construímos a casa dos nossos convidados”, conta Zoller. 

A Fazenda Realeza traduz com precisão esse novo momento do agro. Construída em madeira, com pé-direito alto, arquitetura imponente e integrada à paisagem, a estrutura combina sofisticação e autenticidade rural. Do espaço onde acontecem os leilões é possível contemplar o pôr do sol típico do campo, cenário que reforça a atmosfera de tranquilidade e acolhimento que o agro oferece. A fazenda representa uma experiência completa, onde natureza, hospitalidade e elegância se encontram. Um ambiente que reflete a essência do agro contemporâneo e ajuda a explicar por que cada vez mais pessoas buscam no campo não apenas oportunidades de investimento, mas também qualidade de vida e bem-estar.

“Um dos motivos do sucesso da raça Nelore e do agronegócio no Brasil é esse sentimento que quem não é do agro busca ter:  bem-estar, estar próximo a natureza, vivenciar uma experiência diferente da cidade. Vivemos um momento importante na raça Nelore que é sustentado pelos novos investidores. Nós mesmos, criadores mais antigos, estamos investindo mais porque notamos que pessoas de outros setores buscam na raça essa experiência do agro, uma vida mais genuína. Vivemos um excelente momento, sem dúvida nenhuma. Através dos leilões, conseguimos unir pessoas do Brasil inteiro, que trazem suas famílias para viver junto esse trabalho, o que é muito bacana. É um negócio abençoado. A raça Nelore proporciona uma experiência diferente de tudo: dinheiro, bem-estar e família. Por isso, a raça Nelore é um cartão de visita para o agronegócio brasileiro”, opina Zoller. 

Contraponto

Apesar de toda pujança, o agronegócio ainda se mostra um setor que ainda pode ser melhor enxergado pelo que realmente é. O Brasil alimenta mais de um bilhão de pessoas e ainda não tem o reconhecimento necessário. Mesmo sendo responsável por uma parcela significativa da economia nacional e por grande parte do superávit da balança comercial, o setor ainda enfrenta desafios estruturais que limitam seu pleno desenvolvimento. 

“Eu venho de uma família que é da agricultura há muitos anos, e antigamente o agro era visto como se fosse uma atividade menor. Não tinha glamour nenhum. Depois, com a evolução da agricultura e pecuária foi mudando essa visão. Em determinado momento, as pessoas se deram conta de que o agro é o motor propulsor do Brasil. Agora, o agropecuarista é o empresário da vez. Isso pra mim não trouxe uma coisa muito boa porque não reflete exatamente a realidade do dia a dia do fazendeiro, que é uma rotina muito difícil, não é simples. É uma atividade que, pela importância que tem, recebe muito pouco incentivo”, afirma Mônica. 

Os desafios não são poucos. “O produtor corre todos os riscos. Nós temos problemas gigantes, como o de logística. Enfrentamos vários desafios, e ainda lidamos com muita desinformação,  principalmente no quesito ambiental da atividade. O produtor brasileiro é um empresário muito corajoso e independente. Essa pujança do agronegócio do Brasil se deve ao trabalho dessas pessoas. Não é uma atividade que recebe sempre incentivo nem facilidade. O agro ainda precisa ser muito olhado, principalmente o pequeno e médio produtor. Não é fácil com todos os desafios que temos”, acrescenta a pecuarista. 

Entre tendências culturais, grandes investimentos, experiências que aproximam o público do campo e desafios que ainda precisam ser enfrentados, o agronegócio brasileiro vive um momento singular. O setor que durante décadas trabalhou quase invisível agora ganha novos olhares, novos investidores e novos admiradores. Mais do que um motor econômico, o agro se consolida como expressão de identidade, estilo de vida e orgulho nacional.

Ao mesmo tempo, o Brasil ainda tem o desafio de transformar sua potência produtiva e científica em uma marca forte diante do mundo. Aproveitar esse momento significa valorizar quem produz, fortalecer a imagem do setor e ampliar o entendimento da sociedade sobre o papel estratégico do campo no desenvolvimento do país.

No fim das contas, por trás das tendências, das grandes produções e dos investimentos que movimentam milhões, existe algo muito mais profundo. Uma conexão histórica entre o Brasil e a terra que sustenta sua economia, sua cultura e sua identidade. Como resume o criador Adaldio Castilho, “é uma tendência muito maior que só a moda em si. O agro além de estar na moda, sempre foi a raiz, o coração e o pulmão desse Brasil”.

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