Regras de papel não conduzem gado: quando a caneta ignora o pasto

Por Arlinda Borges
Pecuarista – Fazenda Marino

O setor pecuário brasileiro sempre esteve aberto ao diálogo, à evolução técnica e à
adoção de boas práticas. O que não se pode aceitar é a criação de normas que ignoram a
realidade do campo e tratam a produção animal como um conceito teórico, distante da vida real de quem produz
alimento todos os dias.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) publicou recentemente a Portaria SDA nº 1.295/2025, que redefine de forma ampla as regras para manejo e transporte de animais de produção no Brasil — incluindo bovinos,
suínos, aves, equinos e outras espécies. A mudança está sendo descrita pelo governo como um avanço no alinhamento do país aos padrões internacionais de bem-estar animal e logística rural. Porém, as recentes regras aprovadas pelo governo
para o manejo e o transporte de animais escancaram essa desconexão. Elas não refletem o cotidiano do pecuarista brasileiro e levantam uma preocupação legítima: quem está legislando conhece, de fato, o campo?

O caminhar do gado é instinto, não degradação. Há um equívoco grave na tentativa de enquadrar o
deslocamento natural dos animais no pasto como problema ambiental. O gado cria trilhas porque é da sua natureza. Ele se movimenta em grupo, segue instinto, estabelece caminhos próprios para água, sal e descanso. Não se trata de degradação.
Trata-se de comportamento natural de um ser irracional. Exigir que o produtor “controle” esse deslocamento
é desconhecer completamente a biologia animal e a dinâmica do manejo extensivo. Não há como direcionar o instinto sem interferir de forma artificial na vida do animal. Penalizar essa realidade é criminalizar o que é próprio da pecuária a pasto.


Quem vive do campo preserva o campo. O pecuarista não destrói aquilo que o sustenta.
O solo, o pasto e a água são ativos produtivos — e ninguém tem mais interesse em preservá-los do que quem
depende deles para produzir. O controle ambiental é necessário, mas precisa ser construído com critérios técnicos aplicáveis, e não com exigências que se mostram incapazes de serem cumpridas.
Regras inviáveis não geram preservação; geram insegurança jurídica, aumento de custos e desestímulo à produção.


TRANSPORTE ANIMAL: ONDE O BOM SENSO PRECISA PREVALECER


No transporte, há pontos claros de concordância. Água, alimentação e pausas adequadas em viagens longas já fazem parte da rotina de produtores e transportadores responsáveis. O problema surge quando se ultrapassa o limite do razoável.
A exigência de refrigeração de caminhões no transporte de animais, nas condições logísticas do Brasil, é um
exemplo de norma pensada no papel, não na prática. Um país continental, com estradas rurais desafiadoras e longas distâncias, não comporta esse tipo de imposição sem comprometer toda a cadeia produtiva. Essa exigência não melhora o bem-estar animal. Ela inviabiliza o transporte, eleva custos e impacta diretamente o preço do alimento.

A DISTÂNCIA ENTRE O GABINETE E O CURRAL


Existe uma diferença profunda entre legislar e produzir. O pecuarista trabalha no sol, na chuva, no risco e na
responsabilidade diária de lidar com seres vivos. Não é possível governar o campo a partir de uma lógica urbana,
distante e climatizada. O Brasil rural não cabe em planilhas nem em portarias desconectadas da realidade.
O setor que sustenta o país precisa ser ouvido.

A pecuária brasileira é um dos pilares da economia nacional. É responsável por emprego, renda, alimento e pelo
protagonismo do Brasil no cenário mundial da produção de proteína animal. Regras que ignoram essa realidade não fortalecem o país. Enfraquecem quem produz e colocam em risco aquilo que nos colocou entre os líderes globais.


CONCLUSÃO


O setor não se opõe à evolução, ao bem-estar animal ou à preservação ambiental, pelo contrário: o pecuarista sempre foi parte da solução, mas não se constrói sustentabilidade com normas impraticáveis.

Não se protege o meio ambiente ignorando a natureza do animal. E não se governa o campo sem ouvir quem
está dentro dele. O Brasil precisa de políticas públicas feitas com conhecimento, diálogo e realidade. Porque regras de papel
não conduzem gado, e nunca conduziram. Este tema terá continuação na próxima edição da revista Pecuária Brasil. Usarei este espaço para debater as normas absurdas do governo.

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