Entrevista com Mônica Marchett


A nova agenda da pecuária: eficiência produtiva aliada à sustentabilidade


Referência na seleção de Nelore no Brasil e na Bolívia, a pecuarista Mônica Marchett defende que a raça está pronta para atender o mercado de carne premium e com sustentabilidade

A seleção genética zebuína vive um momento de forte valorização. O que mudou nesse mercado nos últimos anos?
O mercado mudou profundamente porque hoje a genética é entendida como uma ferramenta essencial para tornar a pecuária mais sustentável e mais eficiente. Antigamente, o foco do melhoramento das raças zebuínas não estava tão direcionado para a qualidade da carne. Hoje já sabemos, por meio de dados e avaliações técnicas, que existem animais capazes de entregar maior marmoreio, melhor ganho de peso a pasto, mais eficiência alimentar e uma carne mais macia. O Nelore passou a ser extremamente competitivo dentro desse mercado de carne premium, mostrando que é possível produzir qualidade com adaptação aos trópicos e sustentabilidade.

Dentro do Nelore Mônica, vocês já trabalham com tecnologias como a ultrassonografia de carcaça, buscando mais marmoreio? Essa é uma demanda cada vez maior do mercado?
Sem dúvida. Na Bolívia já desenvolvemos esse trabalho há muitos anos, utilizando touros PO e seleção voltada para qualidade de carcaça. No Brasil, estamos iniciando um projeto mais estruturado nesse sentido. Recentemente adquirimos uma propriedade onde vamos atuar não apenas com a venda de reprodutores, matrizes e embriões, mas também com produção direcionada para carne premium, comercializada diretamente para frigoríficos. É um projeto que começou agora e que deve estar plenamente consolidado nos próximos dois ou três anos.
Produzir genética de excelência hoje exige também posicionamento de marca e comunicação. Como equilibrar o trabalho técnico com a necessidade de aproximar a pecuária do consumidor final?
A comunicação hoje é fundamental. O mundo mudou muito e a informação circula de forma extremamente rápida. Durante muitos anos, o agronegócio — e não apenas a pecuária — falhou em mostrar para a sociedade como realmente trabalha. Isso fez com que surgissem muitas críticas sem que o público conhecesse a realidade do campo, o cuidado com o bem-estar animal, a sustentabilidade e todo o processo produtivo, desde o nascimento do animal até sua destinação final. Hoje é indispensável comunicar melhor. Precisamos mostrar que existe responsabilidade ambiental, manejo correto, tecnologia e respeito aos animais. As redes sociais e o ambiente digital aceleraram isso, e o setor precisa ocupar esse espaço com informação de qualidade.

Na sua visão, quais características definem um criatório preparado para competir nesse novo mercado?
Sem dúvida, sustentabilidade e bem-estar animal são os dois pilares principais. Isso passa pela genética, mas também pelo manejo, pela escolha correta das pastagens e pela gestão da propriedade como um todo. Hoje não existe mais espaço para pensar na produção sem eficiência e sem responsabilidade ambiental. É um processo integrado e orgânico.

O perfil do comprador de genética mudou nos últimos anos?
Mudou bastante e acredito que continuará mudando ainda mais nos próximos anos. Eu costumo dizer que estamos entrando em um período muito forte para a proteína vermelha, e isso está atraindo novos investidores e novos criadores para o setor. Hoje vemos empresários de outros segmentos entrando no agro por meio de parcerias, cotas de animais e investimentos em genética, muitas vezes sem possuir uma fazenda. Isso abriu um leque enorme de oportunidades. Ao mesmo tempo, o pecuarista tradicional também percebeu que tecnologia e genética são fundamentais para melhorar o desempenho do rebanho e aumentar a rentabilidade da atividade.

Hoje é mais fácil construir um bom plantel Nelore do que quando você começou?
Muito mais fácil. Hoje existe uma quantidade muito maior de genética disponível, além de tecnologias que não existiam anteriormente, como fertilização in vitro, transferência de embriões, avaliações genéticas avançadas e até clonagem. A pecuária evoluiu muito rapidamente e isso permite que um novo criador consiga acelerar resultados em um espaço de tempo muito menor do que antigamente.

Você acompanha de perto o mercado brasileiro e também o boliviano. Existe muita diferença entre eles?
São mercados diferentes em escala, porque o Brasil tem dimensões muito maiores. Mas a pecuária boliviana evoluiu muito na genética e hoje existe um intercâmbio bastante forte entre os dois países. Os criadores bolivianos têm acesso às mesmas tecnologias e genética disponíveis no Brasil, então essa distância técnica diminuiu bastante. A principal diferença ainda está no volume de produção.

O Nelore construiu a base da pecuária brasileira. O que os criadores precisam pensar agora para posicionar ainda mais a raça diante das novas demandas do mercado?
Estamos vivendo um momento muito positivo da genética e acredito que um dos grandes desafios agora seja buscar renovação genética, trazendo novas opções de sangue e ampliando a variabilidade dentro dos plantéis. Esse é um movimento natural do melhoramento genético, que precisa acontecer de tempos em tempos. A tecnologia evolui continuamente e a pecuária também precisa acompanhar essa evolução.

Dentro da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil, você atua diretamente na área de marketing. Como tem sido esse desafio?
Eu me sinto em casa dentro da associação. Nosso grande papel é levar informação e trabalhar fortemente a educação do setor, seja por meio de cursos, conteúdos técnicos ou relacionamento com a mídia. O Brasil possui a pecuária em grande escala mais sustentável do mundo, e o Nelore é a raça que sustenta essa produção nos trópicos. Precisamos comunicar isso não apenas para os criadores de PO, mas para toda a cadeia produtiva e para a sociedade.


A sucessão familiar ainda é um desafio no agro. Como atrair as novas gerações para o setor?
No meu caso, tive muita sorte porque meu filho ama esse universo. E acredito muito que a sucessão passa pelo conhecimento. Os filhos precisam conhecer o negócio da família para poder decidir se desejam continuar ou não naquela atividade. Mesmo que escolham outro caminho, é importante entender o funcionamento do negócio para saber gerir ou escolher bons profissionais futuramente. Na minha trajetória foi algo muito natural. Minha família tinha atuação tanto na indústria quanto na pecuária, mas meu coração sempre esteve voltado para a genética e para o campo. Nunca tive dúvida da escolha que fiz.


O que as novas gerações precisam entender sobre genética e esse novo mercado da pecuária?
As novas gerações já chegam com uma facilidade muito maior para lidar com tecnologia. Elas nasceram nesse ambiente digital, então existe menos resistência à inovação do que havia antigamente. Mas junto com essa tecnologia, é fundamental trazer responsabilidade ambiental, social e com as pessoas que trabalham dentro da atividade. Eu vejo de forma muito positiva a entrada de jovens na pecuária porque isso acelera a transformação do setor.
Como você vê o papel da mulher na pecuária moderna?
Eu sempre digo que a presença da mulher no agro é algo muito natural. A mulher traz sensibilidade, cuidado e uma visão diferenciada de gestão e relacionamento. Hoje vemos cada vez mais mulheres ocupando posições importantes na pecuária, liderando projetos, associações e empresas, e isso fortalece muito o setor.

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