Por Fábio Luiz Buranelo Toral
Professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Identificar genética superior não é o único desafio do melhoramento genético de gado de leite. Fazer essa genética chegar, de forma eficiente e economicamente viável, aos rebanhos comerciais também é um desafio a ser superado.
No passado, o fluxo de material genético dos núcleos de seleção até os rebanhos comerciais acontecia em um modelo com três estratos (Figura 1A). O estrato superior era composto por rebanhos que realizavam controle leiteiro e selecionavam os melhores animais (machos e fêmeas para serem os pais da próxima geração). O material genético excedente do núcleo (sêmen e fêmeas, por exemplo) era transferido para o estrato multiplicador, cuja responsabilidade era multiplicá-lo e transferi-lo para o rebanho comercial a preços mais acessíveis. O material genético melhorador chegava ao rebanho comercial basicamente por meio de touros e algumas fêmeas provenientes dos rebanhos multiplicadores.


Figura 1. Modelo clássico de fluxo de material genético entre os rebanhos dos estratos núcleo, multiplicador e comercial (A) e modelo alternativo sem a presença de rebanhos multiplicadores (B).
O estrato multiplicador foi mais importante quando as biotecnologias reprodutivas (inseminação artificial e transferência de embriões, por exemplo) não estavam acessíveis aos rebanhos comerciais, que precisavam de touros para monta natural e utilizavam suas próprias vacas para a produção da próxima geração. A evolução dos procedimentos de inseminação artificial (IA), a redução de seus custos e a disponibilidade de sêmen de animais melhoradores foram fatores fundamentais para a alteração parcial da estrutura apresentada na Figura 1A, com a transferência de material genético de machos melhoradores dos rebanhos do núcleo para os rebanhos comerciais sem a passagem pelo estrato multiplicador. Mais recentemente, a produção in vitro de embriões (PIVE) de vacas geneticamente superiores também contribuiu para acelerar a transferência de material genético dos núcleos de seleção para os rebanhos comerciais (Figura 1B).
Em conjunto, a IA e a PIVE permitem aumentar as intensidades de seleção de machos e fêmeas e reduzir os intervalos de gerações na população. Mas ainda existem desafios, alguns deles relacionados com logística, para transferência de material genético melhorador para os rebanhos comerciais, sendo alguns deles:
Identificar as melhores opções genéticas para cada sistema de produção. Nem sempre o melhor animal em um sistema intensivo será o melhor para sistemas mais desafiadores a pasto. Por isso, identificar qual genética funciona melhor em cada ambiente é uma etapa fundamental. Mas ainda existem dificuldades para caracterizar os ambientes de produção e os programas de melhoramento têm dificuldades operacionais para apresentar as classificações dos animais conforme estes ambientes, de forma clara e objetiva, para os usuários de genética.
Garantir que a melhor genética esteja disponível para transferência entre rebanhos. No início dos testes de progênie, quando não havia a possibilidade de realizar avaliações genéticas com o auxílio das ferramentas genômicas, era necessário esperar de 6 a 7 anos para testar um touro de raça leiteira. Durante, ou logo após este período, alguns animais adoeceram ou morreram por causas evitáveis e não tiveram oportunidades para contribuírem para as evoluções de suas raças. Alguns touros, por questões de origem não técnica, não são contratados por centrais de inseminação e acabam por não contribuir para a evolução genética do rebanho.
Garantir eficiência na produção in vitro de embriões. A produção comercial de embriões depende da disponibilidade de doadoras de boa qualidade e em quantidade suficiente, de estrutura, organização e logística para realização dos procedimentos nas fazendas e nos laboratórios. Em rebanhos comerciais, as próprias vacas leiteiras podem ser utilizadas como receptoras, desde que sejam tomados os cuidados para garantir prenhez adequada e evitar aumento do intervalo de partos.
Preparar os sistemas comerciais para a utilização de biotecnologias reprodutivas e genética superior eficientemente. Os produtores comerciais precisam entender e valorizar a importância da genética de boa qualidade. Para que isso ocorra, professores, pesquisadores e extensionistas precisam apresentar dados confiáveis e claros a respeito dos benefícios da utilização desta genética e capacitar os produtores para prepararem seus sistemas a este cenário de produção com genética diferenciada.
Realizar a gestão da variabilidade genética adequadamente. Associações de raça, programas de melhoramento genético e produtores de material genético precisam ser corresponsáveis pela gestão da variabilidade genética. Neste caso, o termo gestão é utilizado tanto para a identificação dos animais melhoradores quanto para sua utilização racional. Existe um ponto ótimo para utilização de um touro e uma doadora, de modo que seja possível melhorar o potencial genético da população sem comprometer sua variabilidade genética.
Professores, pesquisadores, técnicos, extensionistas, selecionadores e produtores comerciais, assim como as instituições que os representam, têm papel fundamental não apenas na identificação dos animais geneticamente superiores, mas também na construção de sistemas capazes de transferir esta genética aos rebanhos comerciais de forma eficiente, acessível e sustentável. Mais do que produzir animais melhoradores, é necessário garantir que esta genética realmente se transforme em produtividade, rentabilidade e longevidade para a pecuária leiteira.
É fundamental estimular a troca de informações e encurtar a distância entre aqueles que desenvolvem genética de alto potencial e aqueles que precisam dela no campo. O futuro da pecuária leiteira depende não apenas da capacidade de identificar os melhores animais, mas também da eficiência em fazer esta genética chegar, de forma racional e estratégica, até quem produz leite diariamente.


