Reforço no time do Zebu brasileiro

De origem africana, a raça Boran pode passar a ser registrada pela ABCZ a partir do próximo ano

Larissa Vieira

O nascimento do bezerrinho Bilbo FIV GT, em maio, na Fazenda GT, localizada em Nova Era, no leste de Minas Gerais, marcou mais um capítulo da história do zebu no Brasil. Ele é o primeiro exemplar da raça Boran nascido no país após os criadores brasileiros superarem alguns anos de negociações para a liberação da entrada de material genético do Paraguai. 

Os trâmites para importação de embriões Boran começaram em 2022. “Nosso primeiro passo foi tentar a importação via África do Sul, mas por conta das barreiras sanitárias não foi possível. Depois, descobrimos que no Paraguai havia um ótimo rebanho, originado das melhores doadoras da África do Sul. Dessa forma, abrimos um protocolo de importação junto ao Ministério da Agricultura e depois de 3 anos e muita burocracia, conseguimos a autorização para a entrada dos embriões”, lembra o criador Guilherme Gervásio, que é selecionador das raças Nelore e Sindi na Fazenda GT. Ouros pioneiros da primeira importação de Boran são os criadores Godofredo Gonçalves Filho, de Formosa/GO, e Diego Mendes, de Brasília/DF.

Já são mais de 30 exemplares nascidos, sendo 13 na Fazenda GT, além de prenhezes e embriões que em breve devem ser transferidos. Apesar de ter entrado no Brasil via Paraguai, o Boran tem origem no Quênia e leva este nome por ser da região do povo Borana. Seu cupim, mais largo na base e mais fino na parte superior, lembra o Monte Quênia, e sua rusticidade, fertilidade e resistência vêm de séculos de seleção natural no clima árido e quente da África. “O Boran foi introduzido na África do Sul, a partir de 1999, e de lá foi exportado para outros países, como Namíbia, Angola, Zimbabue, além das migrações naturais para o leste da África. Já na América do Sul, a raça entrou pelo Paraguai há 11 anos e de lá chegou à Bolívia e mais recentemente Uruguai e Argentina”, explica o presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Boran (ABCBoran) André Elias Rodini Luiz.

A entidade foi fundada em outubro de 2025, em Brasília, para viabilizar a expansão da raça e seu registro genealógico. Por indicação do Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil, a associação procurou a ABCZ para avaliar a possibilidade da entrada do Boran no Serviço de Registro Genealógico das raças Zebuínas. “O registro genealógico é o alicerce para a instalação e evolução de qualquer raça no Brasil. Unindo forças à ABCBoran, estamos trabalhando para que esta raça cresça e contribua para o desenvolvimento da nossa pecuária”, aponta o presidente da ABCZ, Arnaldo Manuel de Souza Machado Borges.

A inclusão da raça Boran já passou pela análise do Conselho Deliberativo Técnico, que aprovou sua inclusão e estabeleceu o padrão racial. Os próximos passos do processo serão conduzidos em conjunto entre a ABCZ, ABCBoran e Ministério da Agricultura e Pecuária. A expectativa é de realizar o primeiro registro genealógico na ExpoZebu 2027.

Conhecedor do potencial das raças zebuínas, o criador Guilherme Gervásio acredita que o Boran poderá agregar mais desempenho à pecuária brasileira ser uma raça selecionada em ambiente desafiador, mas com uma qualidade de carne e rendimento de carcaça bem interessante. “Além disso, tem um ótimo temperamento e as matrizes são muito eficientes, desmamam bezerros de mais de 50% do seu peso. E nesse aspecto reprodutivo também podem agregar, pois os bezerros nascem pequenos e ágeis”, explica Gervásio, que seleciona Nelore PO há 20 anos e a raça Sindi há seis anos. 

O presidente da ABCBoran, André Rodini, destaca que a raça é uma opção para os pecuaristas que fazem cruzamentos, seja com outros zebuínos puros em com vacas F1. “O Boran tem porte menor, semelhante ao do Sindi, porém é mais compacto, com costelas mais arqueadas e posterior bem avantajado. São características excelentes para produzir bezerros com menor peso ao nascimento e maior peso à desmama. Além disso, por ser de porte menor, permite maior lotação por hectare”, informa.

Com vasta experiência no mercado de genética bovina, André Rodini vivenciou a trajetória de diversas raças. Já foi criador de Bonsmara. Em 1999, importou os primeiros embriões da África do Sul. Depois, voltou suas atividades para o comércio de sêmen e embriões de várias raças. “Conheci o Boran na época em que criava Bonsmara. Agora, resolvi criar exclusivamente Boran por ser um zebuíno africano bem adaptado, precoce, fértil e ainda com uma alta demanda. É uma raça que atende a tendência da pecuária de corte atual de aumentar a lotação com pastos rotacionados e intensificar a produção em pequenas áreas. O Boran se encaixa perfeitamente nessa lacuna”, diz Rodini.

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