Raça vive forte expansão e aposta em profissionalização para crescer no Brasil e no exterior
Larissa Vieira
O cavalo Mangalarga Marchador é um dos exemplos da grande aptidão do pecuarista brasileiro para selecionar e criar novas raças. Mineiríssimo, surgiu há dois séculos, no Sul de Minas, a partir de cruzamentos de cavalos da raça Alter – trazidos da Coudelaria de Alter do Chão, em Portugal – com outros cavalos selecionados pelos criadores mineiros. Com mais de 800 mil animais registrados atualmente, é a raça equina mais utilizada no país. Presente em cavalgadas, festas populares e exposições, ela conecta tradição, esporte e economia. Em 2019, foi reconhecida oficialmente como “Patrimônio Cultural Equestre do Brasil” pelo Congresso Nacional, marco que reforça sua relevância histórica e simbólica.
O Mangalarga Marchador atravessa um dos momentos mais aquecidos de sua história. O crescimento no número de criadores, a valorização genética, a profissionalização da gestão e a expansão para novos mercados colocam a raça em posição de destaque no agronegócio nacional — e agora também no radar internacional.
Somente nos últimos meses, a Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador (ABCCMM) vem registrando a entrada de aproximadamente 300 novos associados por mês. “O foco do nosso trabalho é expandir a raça para mercados em potencial, especialmente para o Centro-Oeste, Norte e Nordeste, além de aumentar nossa participação nas regiões bem consolidadas. Em geral, o mercado está muito bom, bastante comprador e com muita liquidez”, destaca o presidente da ABCCMM Dario Colares de Araújo Moreira. A entidade tem cerca de 28 mil associados.
Dario vem de uma família com 90 anos de história no Mangalarga Marchador. Criador em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, é a quarta geração da família à frente da seleção da raça. Seu avô, Nozinho, registrou o primeiro animal em livro fechado na ABCCMM. “O Mangalarga Marchador tem um apelo muito forte porque é um cavalo cômodo, bonito, dócil e muito identificado como o cavalo de sela brasileiro”, assegura Dario.
Foco no mercado externo
Embora ainda de forma pontual, o Brasil já exporta animais da raça para países da Europa e da Ásia. Agora, a associação quer estruturar um projeto mais robusto de internacionalização.
As primeiras ações incluem aproximação com o Ministério da Agricultura e Pecuária, missões técnicas e estudos sobre barreiras sanitárias e exigências comerciais de mercados como América do Norte, Europa, Ásia e África. “O mundo ainda conhece pouco o cavalo nacional. O Mangalarga Marchador reúne características que podem colocá-lo entre os melhores cavalos de sela do mundo, mas precisamos apresentar isso ao mercado internacional”, avalia o presidente.
A estratégia prevê intercâmbio técnico, ações de marketing e critérios mais rígidos para seleção dos animais exportados, garantindo que os exemplares enviados ao exterior representem o padrão de qualidade da raça brasileira.
Em um cenário de expansão contínua, o setor aposta que o próximo passo do Mangalarga Marchador será consolidar sua força não apenas como paixão nacional, mas como produto competitivo no mercado global da equinocultura.
Boom dos leilões
A entrada significativa de novos investidores tem impulsionado os preços nos leilões, elevando o volume de negócios no país. Enquanto animais comerciais podem ser negociados por cerca de R$ 6 mil, exemplares de genética consagrada atingem cifras milionárias, acima de R$ 2 milhões.
Selecionador da raça há 25 anos, no Haras Lua de Prata, em Buritis/MG, Marcelo Martins Araújo acredita que a raça vive seu melhor momento. Uma história que começou por lazer, incentivada pelo pai, Pedro Américo, e transformou-se em um dos criatórios de destaque da raça no país, acumulando títulos, investimentos em genética e resultados expressivos em leilões e competições nacionais. Recentemente, comercializou 25% da posse da égua Famosa Lua de Prata por R$2,4 milhões, tornando-se uma das mais valorizadas do país. Ela é uma das principais Reprodutrizes da Raça na atualidade e conta com inúmeros filhos campeões em pista.
O feito ocorreu no leilão comemorativo dos 25 anos do Haras Lua de Prata, que, segundo Marcelo Araújo, alcançou um dos maiores faturamentos já registrados em leilões individuais da história do Mangalarga Marchador.
O criador desenvolveu uma estrutura totalmente voltada para a equinocultura na fazenda, que é dedicada exclusivamente aos cavalos. “A evolução genética, os avanços nas biotecnologias reprodutivas e a profissionalização da gestão da ABCCMM impulsionaram o crescimento do mercado. Os animais estão mais evoluídos, mais marchados, mais amplos e com qualidade de sela excepcional. A mão de obra também evoluiu muito, assim como o nível das competições”, afirma.
Um dos pilares do trabalho do criador é o investimento em reprodução. Atualmente, o haras produz entre 80 e 100 embriões por ano. Além da produção própria, o criador investe constantemente na compra de embriões, receptoras e genética de ponta para fortalecer o plantel. “Hoje todos os criadores conseguem utilizar um garanhão que acredita ser ideal para suas éguas. O sêmen congelado trouxe essa acessibilidade para todos”, destaca.
Inovando nas negociações
Apesar de ser um recente investidor da raça, Rafael Mischiatti, proprietário do Haras Misk Haras Misk, sediado em Igaratá/SP, já detém o título de Melhor Expositor (Marcha Picada) em 2025 e segue líder do Ranking Geral de 2026 até o momento. O projeto nasceu de um momento de transformação. Durante os desafios da pandemia em 2021, a família encontrou no refúgio da fazenda uma nova paixão. O projeto começou de forma despretensiosa, com apenas um cavalo, mas ao conhecerem o Mangalarga Marchador, foi amor à primeira vista.
Segundo Mischiatti, um minucioso trabalho de base, focado no entendimento profundo de genética e regulamentos, vem sendo desenvolvido desde então com resultados consistentes nas pistas a cada ano. Em 2024, foi eleito o Melhor Expositor até Cinco Anos. “Em 2025, alcançamos a consagração máxima ao nos tornarmos o Melhor Expositor do Brasil, quebrando um jejum de quase uma década e trazendo esse importante título de volta para o estado de São Paulo”, diz o criador.
Educação e qualificação viram prioridade
Com a expansão acelerada da raça, a associação também passou a concentrar esforços na profissionalização da mão de obra e na democratização do acesso à informação técnica. Segundo o presidente da ABCCMM, um dos maiores desafios atuais é reduzir a distância entre grandes criatórios de elite e pequenos produtores espalhados pelo interior do país. “O foco da nossa gestão é levar educação, informação e capacitação para os pequenos e médios criadores, para que eles possam agregar valor aos seus animais e se tornar mais competitivos”, explica a entidade.
Entre as ações em andamento estão cursos de formação por competência, divididos em dez módulos, abordando desde equitação, manejo e caracterização racial até gestão de negócios e preparação psicológica dos profissionais que atuam diretamente com os cavalos. Os treinamentos já passaram por estados como Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraíba.







