Entrevista: Tereza Cristina

“O Congresso eleito terá uma legislatura difícil”, afirma Tereza Cristina

Larissa Vieira

Uma das vozes do agro mais fortes no Congresso Nacional, a senadora Tereza Cristina vê com preocupação tantas incertezas em relação ao futuro do Brasil. Ela tem percorrido o país para ouvir a população. São demandas que vão do endividamento rural, da reforma tributária, da proibição das exportações de carne pela União Europeia até os polêmicos jogos eletrônicos. De família de produtores rurais e políticos (o bisavô e o avô foram senadores), Tereza Cristina seguirá por mais quatro anos no Senado, em 2027, com o intuito de trabalhar por mudanças profundas no país. Em entrevista exclusiva à revista Pecuária Brasil, concedida no dia em que foi homenageada com o Mérito ABCZ Mulher, durante a ExpoGenética 2026, ela fala sobre todos esses desafios. Confira:

Em relação às novas exigências da União Europeia para a importação de carne brasileira, como o país pode mostrar que o nosso sistema de fiscalização sanitário funciona?

O Brasil terá de promover mudanças para resolver essa questão, pois a Europa, apesar de importar uma cota pequena de carne, paga mais e abre portas para outros mercados, sendo parâmetro para formação de preço da nossa arroba. Há um tempo já vinha dizendo que não aceitaria o uso de promotores de crescimento e de antimicrobianos na produção de carnes, mesmo com esse alerta, o Brasil demorou um pouco para tomar a iniciativa de definir qual protocolo pretende seguir. Se vai fazer a rastreabilidade do processo, identificando quem utiliza esses produtos, ou se fará como nossos vizinhos Argentina e Uruguai, que baniram o uso dos antimicrobianos proibidos pela Europa. Essa é uma decisão que precisa ter muito diálogo, pois tem impacto na produção. Precisamos quantificar se vale a pena banir esses produtos e qual será o impacto disso no preço da arroba. 

Corre-se o risco de outros países tomarem a mesma medida em relação à nossa carne?

A China já tem essa exigência no seu protocolo de importação, porém ainda não colocou em prática, o que pode ser feito a qualquer momento. No caso da União Europeia, como essa proibição veio logo após a assinatura do acordo de livre comércio com o Mercosul, ficou parecendo se tratar de uma medida direcionada apenas ao Brasil, mas essa questão já vinha sendo tratada há muito tempo. Agora, precisamos definir em conjunto qual caminho tomar. Não podemos deixar essa decisão para depois, pois corremos o risco de outros países preencherem o espaço deixado pelo Brasil. Sem falar que cadeias de ciclo mais longo, como a da carne bovina, levarão mais tempo para implantarem as mudanças. Já as cadeias de ciclo curto de produção, como por exemplo a de frango, que também entrou nessa proibição, o resultado pode ser mais rápido por ser mais integrado em relação ao fornecimento da ração. Nessas cadeias, mudanças já estão sendo adotadas.

Outro problema que ganhou mais evidência este ano é o endividamento agrícola. Como a senhora vê essa situação?

Estamos trabalhando muito para solucionar a questão, mas não está fácil. O governo não aceitou dar continuidade ao PL 5122, que tinha uma visão macro dos problemas pelos quais a agricultura passa atualmente em termos de crédito, de endividamento. O governo tem uma resistência a isso. Então, aceitamos uma medida provisória, mas ela ficou muito aquém daquilo que o setor precisa hoje para resolver o seu problema de crédito. Agora, vivemos um momento muito delicado, principalmente na agricultura. Não se trata de isenção do pagamento da dívida, mas do prolongamento dessa dívida para que o produtor consiga quitar. Se o governo tivesse sensibilidade e já tivesse aprovado o seguro rural, provavelmente 60% a 70% dos problemas que temos hoje de endividamento estariam sanados. Muitos estão endividados por conta dos prejuízos causados nas lavouras pelas intempéries climáticas. O cenário atual é complicado: os juros estão muito altos, o dólar está mais baixo agora do que quando o produtor fez o financiamento para o plantio, o custo dos insumos está muito alto e o preço das commodities baixo. Mas as conversas não se encerraram. Sabemos que as medidas são insuficientes e nós vamos trabalhar para conseguir melhorar e para que mais gente seja incluída nesse benefício.

A reforma tributária pode ser um outro fator complicador para o setor?

Temos de acompanhar como isso vai caminhar a partir de 2027. Conseguimos deixar o produtor rural praticamente fora da reforma tributária, que atingirá mais o comércio e a indústria. A reforma também teria de ter a neutralidade, porém sabemos que essa neutralidade não deve ocorrer. Terá um plus que pode prejudicar diversos segmentos. Tomara que não seja a nossa agropecuária, que já está combalida por uma série de problemas.

Como o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), recém-sancionado e cujo Projeto de Lei nº 15.496 teve sua relatoria no Senado, contribuirá para o agro e a economia do país?

Isso é muito importante para que o Brasil tenha a sua política e a sua produção própria. Trata-se de uma questão de segurança nacional. Hoje, somos altamente dependentes da importação de fertilizantes de outros países e estamos sofrendo com as duas guerras em curso no mundo, justamente nos países de onde mais importamos nitrogenados e cloretos. Agora, com a nova legislação, sancionada em setembro de 2026, o país passa a contar com medidas destinadas ao fomento da produção, no território nacional, de fertilizantes e de suas matérias-primas de origem sintética, mineral e orgânica, além de remineralizadores, bioinsumos e biofertilizantes. A lei prevê, a partir de 2027, recursos para investimento nas fábricas nacionais e para realizar a mistura do produto brasileiro com o produto importado. O percentual mínimo será de 2% a partir de 1º de julho de 2027 e deverá aumentar gradualmente até alcançar 10% em 1º de janeiro de 2037. 

A senhora chegou a declarar que o Congresso deveria discutir temas mais importantes para o país. Quais seriam as prioridades na sua visão?

O Congresso eleito terá uma legislatura difícil, com temas importantes para votar e fazer o Brasil rodar novamente. São vários problemas acontecendo. É o caso da reforma tributária, que citei acima. Ela será implementada, mas precisará de leis complementares e precisamos passar isso rapidamente. Outro ponto é o arcabouço fiscal. Votei contra o arcabouço em 2023, porque o risco de irresponsabilidade fiscal já era evidente. Quase 70% dos gastos do governo Lula 3 já furam o limite que ele mesmo criou. Agora, a Fazenda promete conter a gastança, mas sem dizer onde vai cortar. O resultado disso são juros altos, endividamento e carestia. Se isso está acontecendo, a pergunta que temos de fazer é: está tudo bem? O governo está acertando? Eu acho que não. Precisamos discutir seriamente esses pontos para que o Brasil possa caminhar com tudo aquilo que nós temos de potencialmente bom no país, terra, água, sol, gente, todo mundo precisa de minerais raros que o Brasil tem, mas nós não temos regulamentação. Ainda temos outros problemas que parecem pequenos, mas não são. Precisamos focar em muita coisa da economia, em diminuir a burocracia. Ninguém aguenta mais pagar os juros que pagamos, o imposto que pagamos, um dos mais altos do mundo, e não ter o benefício de volta. 

Além das demandas do agro, que outras demandas a senhora avalia como prioritárias para levar ao Senado?

Trabalho muito pelo meu segmento, mas, também, para atender outras demandas da sociedade no Senado Federal. Hoje, a questão dos jogos eletrônicos é uma preocupação. Quando saio às ruas muita gente me pede para acabar com as Bets, pois elas estão dilapidando patrimônios de pessoas, principalmente de quem não tem muitos recursos, deixando mais empobrecida ainda a nossa população. Então esse é um assunto que eu vou me debruçar para saber o que é que nós podemos fazer para ajudar essas pessoas.

Como precisa ser o perfil desse novo Senado recém-eleito para atender os anseios da população?

O propósito do Senado precisa ser o desenvolvimento, a melhoria de vida dos brasileiros por meio do trabalho. Não existe nada de graça. Em todos esses meus anos de vida, tudo o que fiz foi batalhado, trabalhado. O brasileiro precisa mudar um pouco a visão de mundo para alcançar o desenvolvimento tão sonhado, como a melhoria dos empregos e dos salários. Além disso, precisaremos trabalhar para uma política fiscal responsável. Sabemos que não existe milagre. Existe discurso para enganar aqueles que não conhecem a realidade do país. Espero que meus colegas de Senado tenham esse compromisso nesta nova legislatura.

Os grupos de mulheres no agro vêm ganhando força nos últimos anos. Qual mensagem deixa para a nova geração que está chegando no agro?

Que elas procurem entender o que está acontecendo no país e que cada uma ajude com aquilo que pode. Tem gente que quer ser produtora rural, tem gente que quer ser gestora, enfim, as mulheres podem chegar aonde elas quiserem. Basta trabalharem, se prepararem para um futuro que elas pensam ser o melhor. Muitos grupos estão fazendo a diferença nos seus municípios, nos seus estados. E eu fico muito feliz de ver a organização das mulheres do agro pelo Brasil todo.

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